Siga-nos por Email

1 de julho de 2011

A Última Moeda


"O senhor K., falando do péssimo hábito de deixar passar em silêncio as injustiças, contou esta pequena história. Um transeunte quis saber de um rapazinho em lágrimas à razão de suas penas.
— Eu tinha nas mãos duas moedas para pagar uma entrada de cinema — disse o menino —, quando chegou um garoto mais forte do que eu, me arrancou uma delas das mãos. 
E apontou um jovem, que ainda podia ser visto a certa distância.
— E você não pediu socorro? — perguntou o passante.
— Claro — respondeu o menino, soluçando ainda mais forte.
— E ninguém o ouviu? — indagou ainda o estranho, acariciando-o amavelmente.
— Não… — soluçou o garoto.
— Quer dizer que você não tem capacidade vocal, que o habilite a gritar com mais força? — interrogou o homem. — Nesse caso, passe já pra cá essa outra moeda! Tomando-a, meteu-a no bolso e continuou tranquilamente o seu caminho." 

(Texto adaptado do poema: O Garoto Desamparado – Bertold Brecht) 
...

É comum reclamarmos quando não estamos satisfeitos. Mais do que isso, faz parte da nossa natureza. Ao longo da história evolutiva das espécies, o ato de um bebê chorar, passou a ser uma EEE (Estratégia Evolutivamente Estável), ou seja: é uma tática que foi adquirida pela espécie humana, e que de tão eficiente, ela permanece inalterada ao longo da história e sempre será adotada para determinadas situações. O choro passa a ser um mecanismo de reivindicações do bebê. Essa é a forma pela qual a criança comunica aos adultos a sua insatisfação com a situação atual. E é assim que elas têm feito suas reclamações. 

O governo do estado do Rio Grande do Norte, nos últimos anos vem adotando a estratégia: “sua última moeda!”. O que seria isso? Parece que virou rotina o Estado contingenciar o orçamento (já insuficiente) do Ensino Superior do Estado. Dessa forma, o governo bloqueia e transfere o dinheiro que seria destinado para educação, e acaba gastando com outras obras que são “prioridades” (como patrocínio a times de futebol, festas ou propaganda – Panis et circus?). Isso mesmo, a educação não é questão prioritária no governo do estado. 

Para podermos ter uma idéia melhor do que se passa, vamos recorrer aos números do orçamento. Apesar da frieza que eles carregam (números), ainda assim é a melhor maneira de demonstrar e analisar resultados. 

O orçamento da UERN é composto por três partes: custeio (valores destinados à telefonia, água, energia elétrica, combustível, material de expediente e limpeza entre outros); investimento (construções e equipamentos); e a folha de pessoal. Para 2011, a universidade solicitou R$ 14,2 milhões para o custeio. No entanto, a Assembléia Legislativa (AL) aprovou somente R$ 9,6 milhões. Para piorar a situação, houve um contingenciamento de 30%, restando R$ 6,7 milhões. Isto significa pouco mais de R$ 550 mil, por mês, para manter seis campi da UERN, espalhados por todo o estado. 

Com relação ao investimento, foi solicitado pela instituição, o valor de R$ 22,1 milhões. Desse total, R$ 5 milhões foram aprovados pela AL e, com o contingenciamento, sobraram apenas R$ 3,5 milhões para construções e compra de equipamentos para a UERN. Já para a folha de pessoal, abrangendo o crescimento vegetativo (mudanças de níveis, classes, conquistas de Dedicação Exclusiva) e a política salarial (cumprimento do Plano de Cargos e Salários dos servidores), foram solicitados R$ 175,8 milhões, sendo que foram aprovados pela AL, R$ 141,6 milhões. 

Achou isso muito? Pois saiba que para a UERN manter os seus compromissos financeiros, o saldo final de todas as rubricas ficará negativo. Para a área de custeio, a universidade necessita de R$ 9,8 milhões, mas o valor disponível é de R$ 6,7 milhões, sobrando um saldo de R$ - 3,1 milhões. Para o investimento, a UERN precisa de R$ 22,1 milhões, e dispõem de R$ 3,5 milhões. Fica um déficit de R$ - 18,6 milhões. Além disso, a UERN possui despesas em virtude de exercícios anteriores. Em 2010 os valores aprovados para custeio foram de R$ 6,9 milhões, mas só foram repassados R$ 5,8 milhões, deixando um saldo R$ - 1,1 milhão. No fim das contas, a UERN ficará com uma dívida de R$ - 22,8 milhões. 

O resultado disso os alunos, professores e funcionários da UERN já sabem muito bem: atraso no pagamento aos fornecedores, cancelamento de viagens por falta de combustível e diárias para motoristas, atrasos no pagamento das (já insuficientes) bolsas de monitoria e/ou iniciação científica, reformas que nunca são feitas, sucateamento dos equipamentos de laboratório, cancelamento de aquisições de livros para biblioteca, telefones cortados, reajustes na folha de pagamento que nunca são feitos. E ainda tem gente que diz que está tudo bem. 

A última moeda está sendo retirada de nossas mãos. Pior de tudo, por aqueles que imaginávamos que iriam nos proteger. O que você vai fazer? Vai apenas chorar ou irá abraçar a causa também? Não se iluda, a única pessoa que pode mudar isso é você! Estão lhe assaltando a luz do dia, e, você permanecerá parado? 

Nós do @C_O_M_E_M estamos te esperando na luta. Está na hora de desfraldar a bandeira da educação. Vamos resgatar os valores de nossa sociedade. Devemos alicerçar o futuro dos nossos filhos em uma base segura. É por isso que lutamos. É nisso que acreditamos.

Um comentário:

  1. Mais esclarecedor impossível. Vcs conseguiram dissecar a fundo a situação de penúria do ensino superior no estado.Parabéns pelo texto!Parabéns pelo movimento!E obrigado pelo protesto que iniciaram contra o caos da educação. Agradeço não só em meu nome, mas também da família e em especial do meu filhinho de 1 ano!OBRIGADO!!!

    ResponderExcluir